Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) e UNICEF são unânimes: ainda que bem-intencionados, os apoios da sociedade civil às instituições humanitárias, através de donativos materiais, como roupa, podem nem sempre ser úteis em contexto de assistência humanitária em situação de crise.

Esta foi a posição consensual destas três organizações, mobilizadas, entre outras missões, para o apoio humanitário no atual contexto de conflito no Leste da Europa. Esta partilha de posição registou-se durante a respetiva participação na 8.ª edição do Seminário de Saúde da GS1 Portugal, a 12 de maio. André Costa Jorge, Diretor do JRS, explicou que “estes cenários mundiais despertam, em toda a sociedade europeia, uma vontade solidária que, de alguma forma, perdeu racionalidade”. Referindo-se aos envios massivos de bens materiais e alimentares, o responsável destacou que, não sendo aquilo que está em falta no terreno, “acaba por criar, em muitas organizações que não tinham uma estrutura preparada, a necessidade de criar condições logísticas, muitas vezes desnecessárias, em termos de energia gasta e desfoque em relação àquilo que é a missão destas organizações. Portanto, o «querer fazer qualquer coisa» não significa necessariamente fazer o correto” e “aquilo que chega ao terreno não é aquilo que precisamos para dar resposta”.

É também por essa razão que “a Cruz Vermelha não aceita doações em bens, pela dificuldade de fazer toda a rastreabilidade e assegurar que esses donativos materiais venham a ser usados”. Por isso, Gonçalo Órfão, Coordenador Nacional de Emergência da CVP deixou o apelo: “é extremamente importante confiar nas instituições que estão no terreno e na transparência das doações monetárias. O donativo financeiro é mais real”.

Tão importante como o ajustamento dos donativos às reais necessidades no terreno é a comunicação, como apontou Luísa Motta, Diretora de Marketing e Fundraising da UNICEF. “Os nossos programas de desenvolvimento dependem do abastecimento. É preciso haver uma capacidade logística e um sistema muito fortes, resilientes e reativos para que exista uma resposta eficaz”, referiu. No caso do atual conflito na Ucrânia, “onde existem 5 delegações da UNICEF há 25 anos”, aquando do início da invasão, “já nos era possível fazer um levantamento das necessidades específicas, mesmo antes de se tornarem prementes. A UNICEF abasteceu muitos hospitais com equipamentos cirúrgicos, materiais hospitalares e medicamentos. Isto só foi possível porque já existia essa ligação e uma cadeia logística capaz de chegar lá”, explicou.