Indústria Agroalimentar – Competências 4.0

Artigo por Pedro Queiroz
Diretor-Geral da FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares

 

À medida que a transição tecnológica no setor agroalimentar vai fazendo o seu caminho, é expectável que os fatores competitivos assentem prioritariamente na capacidade de criar valor por via da otimização de processos, com recurso aos sistemas digitais e linhas de produção automatizadas, o que coloca às empresas crescentes desafios ao nível do recrutamento.

Cada vez mais os trabalhadores serão contratados para desempenhar funções assentes no conhecimento especializado.

De facto, trabalhar num ambiente onde a produção e o layout fabril estão organizados para acomodar os princípios da indústria 4.0 é completamente diferente de uma envolvente de linhas tradicionais.

O ambiente digital impacta a organização do trabalho, as tarefas a realizar e as tecnologias a utilizar, criando necessidades muito especificas ao nível das competências a integrar e que podem ser estruturadas em três categorias: manuais, cognitivas e as chamadas soft skills, sendo que as competências digitais implicam uma abordagem transversal.

As competências cognitivas, conjuntamente com as manuais, são as categorias cuja importância relativa na produção alimentar e na logística tenderá mais a aumentar em resultado da implementação de sistemas automatizados e digitalizados. As competências cognitivas relacionam-se com a capacidade de pensar, agir e comunicar, o que dá relevância à leitura, à escrita e ao cálculo enquanto competências centrais nesta categoria. Mesmo numa indústria 4.0 a tecnologia, de forma isolada, não é uma solução, é uma facilitadora. Significa isto que sem mão-de-obra devidamente qualificada será muito difícil atingir todo o potencial da tecnologia; é aqui que entroncam as competências artesanais. Ou seja, o conhecimento e a experiência dos processos, dos materiais e das suas combinações, de forma a explorar todo o potencial de produção de alimentos seguros e de qualidade e de melhoria dos processos.

Nesta era industrial, as competências artesanais ganham uma nova dimensão, em particular ao nível do ajustamento das tecnologias automatizadas e dos melhores níveis de desempenho.

Antecipa-se assim que as competências, dos futuros trabalhadores da indústria alimentar 4.0, possam vir a ser ilustradas pelos seguintes exemplos: um “super-técnico” altamente especializado, com competências adequadas ao nível das tecnologias de informação, da capacidade de interpretar as necessidades emergentes do processamento alimentar moderno e da alta propensão para a mudança. Capaz de lidar com cenários de crescente complexidade e assumir mais responsabilidades. Dominar um conjunto de competências mais amplo e ser flexível para alternar entre diferentes tarefas. Saber lidar com o sentido de controlo externo, devido aos fluxos de dados online e em tempo real.

As oportunidades de emprego mudam constantemente. Para que as pessoas estejam em condições de encontrar novos postos de trabalho, a sua base de competências deve ser atualizada.

Por conseguinte, o tecido empresarial e o sistema de ensino devem encontrar formas de promover a aprendizagem contínua e o reconhecimento das competências dos trabalhadores. Isto vai para além da indústria agroalimentar.