Modelos de Perfil Nutricional na redução do marketing e publicidade a alimentos comercializados para crianças até aos 36 meses

Artigo por Mariana Santos e Ana Isabel Rito
Departamento de Alimentação e Nutrição, Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge

Os primeiros 1000 dias de vida de uma criança, que corresponde ao período entre a conceção e os dois anos de vida, constitui uma oportunidade na otimização do crescimento e desenvolvimento, bem como, na modelação da saúde futura, nomeadamente na prevenção de doenças crónicas não transmissíveis (Associação Portuguesa de Nutrição, 2019). Esta fase abrange a alimentação complementar, um período em que são oferecidos alimentos ao lactente, depois dos 6 meses de vida, em complemento ao aleitamento materno ou às fórmulas infantis (Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde, 2019)

A introdução da alimentação complementar neste período e a sua diversificação vão contribuir para suprimir as necessidades energéticas e em alguns micronutrientes, sendo que o aleitamento materno deverá continuar pelo menos até aos 12 meses, sempre que possível (Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde, 2019).

Até aos 2 anos de idade, as crianças não devem consumir alimentos com açúcares adicionados ou sal. No entanto, as evidências indicam que diversos produtos comercializados para crianças apresentam elevada densidade energética, são ricos em gorduras, açúcares e/ou sal e com alegações nutricionais inadequadas (Grammatikaki, Wollgast, & Caldeira, 2021; Santos et al., 2022).

As crianças são alvo de constantes estratégias de marketing e publicidade de alimentos, sendo que diversos estudos demonstram que a publicidade alimentar tem impacto nas suas preferências e hábitos de consumo alimentar. Estes dados demonstram a necessidade de adoptar medidas que visem restrigir a publicidade de alimentos de elevado valor energético e com elevedos teores de ácidos gordos saturados, sal e açucar (Boyland et al., 2022).

Os Modelos de Perfil Nutricional foram desenvolvidos com o objectivo específico de definir a qualidade nutricional de alimentos individuais ou de grupos de alimentos, classificando-os de acordo com o seu conteúdo específico em nutrientes ou ingredientes de interesse (World Health Organization (WHO), 2015).

A importância atribuída ao perfil nutricional é cada vez maior, conforme demonstrado pelas recomendações para a sua utilização em importantes documentos e guias de política internacional em relação à promoção de alimentos e bebidas para crianças. Em novembro de 2022, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou o Modelo de Perfil Nutricional destinado aos alimentos comercializados para crianças dos 6 aos 36 meses, de modo a orientar os países europeus na identificação de produtos inadequados para esta faixa etária (WHO Regional Office for Europe., 2022).

Neste modelo, a OMS recomenda a não adição de açúcares em todos os alimentos destinados a essa faixa etária (incluindo sumos de frutas concentrados), assim como, a limitação do uso de purés de fruta, a redução do teor de sódio e a fixação de um valor máximo para o teor de gordura total. Em concordância com as recomendações do Codex Alimentarius, é também estabelecido que os produtos não devem apresentar alegações nutricionais, de saúde ou de marketing, quer seja na embalagem ou em materiais associados, e não devem ser destinados a crianças com menos de 6 meses de idade (WHO Regional Office for Europe., 2022).

A definição de um modelo de perfil nutricional, que permita avaliar os alimentos comercializados para crianças dos 6 aos 36 meses, servirá de base para a implementação de medidas, tais como a reformulação dos produtos alimentares, restrições ao marketing de alimentos nutricionalmente inadequados, entre outras, contribuindo para a promoção de uma Alimentação Saudável.

 

Referências

Associação Portuguesa de Nutrição. (2019). Alimentação nos primeiros 1000 dias de vida: um presente para o futuro. E-book no53. (Associação Portuguesa de Nutrição, Ed.). Porto.

Boyland, E., McGale, L., Maden, M., Hounsome, J., Boland, A., & Jones, A. (2022). Systematic review of the effect of policies to restrict the marketing of foods and non‐alcoholic beverages to which children are exposed. Obesity Reviews23(8), 1–21. https://doi.org/10.1111/obr.13447

Grammatikaki, E., Wollgast, J., & Caldeira, S. (2021). High levels of nutrients of concern in baby foods available in Europe that contain sugar-contributing ingredients or are ultra-processed. Nutrients13(9). https://doi.org/10.3390/nu13093105

Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde. (2019). Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos – Linhas De Orientação Para Profissionais E Educadores. Lisboa: Direção-Geral da Saúde, 2019. Retrieved from https://alimentacaosaudavel.dgs.pt/alimentacao-saudavel-dos-0-aos-6-anos/

Santos, M., Matias, F., Loureiro, I., Rito, A. I., Castanheira, I., Bento, A., & Assunção, R. (2022). Commercial Baby Foods Aimed at Children up to 36 Months: Are They a Matter of Concern? Foods11(10), 1–20. https://doi.org/10.3390/foods11101424

WHO Regional Office for Europe. (2022). Nutrient and promotion profile model: supporting appropriate promotion of food products for infants and young children 6–36 months in the WHO European Region. Copenhagen. Retrieved from https://www.who.int/europe/publications/i/item/WHO-EURO-2022-6681-46447-67287

World Health Organization (WHO). (2015). WHO Regional Office for Europe nutrient profile model. Retrieved from http://www.who.int/iris/handle/10665/152779